domingo, 7 de julho de 2013

Sardas


'' Eu tenho uma inclinação por sardas e cabelos ruivos. Mulheres com sardas costumam
não gostar, é curioso.
Quando criança, uma amiga colava fita crepe no rosto e puxava acreditando que as
sardas sairiam junto. Ela não respeitava as sardas, confundia com espinhas. Ficava
furiosa com Deus, que pintou seu corpo sem permissão. Coloriu seus braços enquanto
dormia no ventre. Abominava a ideia de ser diferente, tantos sinais de nascença como o
número de estrelas.Sofria com brincadeiras alusivas à ferrugem.
Tanto que não usava dedos ou palitos de fósforo para aprender a contar na escola, mas as
sardas. Enchia-se de cremes da mãe para sarar daquilo que era uma virtude. Agredia as
pintas como uma catapora, uma doença, uma tristeza. Encabulada com os
apelidos que poderia receber. Se um menino a observava com admiração, já tomava
como crítica e virava o pescoço para não se machucar. Fugia de si, como se o véu fosse a 
própria face. Era uma muçulmana de sua timidez.
Enquanto ela queria tirar as sardas, desejava tê-las. A pele enxerga melhor com sardas.
São os óculos naturais da pele. Fogo que levemente doura. Brasa singela que acomete as
árvores e o crepúsculo no outono. Pão casado com a madeira.
As sardas são uma procissão da boca. Não retiram beleza, mas acentuam. Fazem
qualquer rosto voar como os cabelos, subir como um vestido. Não deixam nenhum rosto
brincar sozinho. São marcas de lábios das folhas. Uma chuva de folhas. O cheiro de 
alfazema das folhas.
O ouvido torna-se mais próximo das sobrancelhas, mais próximo do nariz, mais próximo
do queixo. É possível acompanhar toda a vizinhança dos telhados. As sardas são balas de 
goma, o açúcar das balas de goma. Elas fazem o corpo rir mesmo quando está indisposto.
Uma mulher com sardas tem jeito de praça na lomba. eu só subia a lomba da rua porque 
tinha uma praça no meio do caminho para brincar e recuperar o  fôlego. A praça sempre
foi  a véspera da minha casa. As sardas são a véspera do sol.
Um rosto com sardas, pode reparar, é bem iluminado. Não pela lux que entre, pela luz que
já estava lá.''
...


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